A SINFONIA CAÓTICA DA GESTÃO ESCOLAR
- Paulo Garcia

- 28 de mai. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 18 de jun. de 2025

O gestor escolar é um artista da sobrevivência institucional. Equilibra-se em uma corda bamba esticada sobre um abismo de responsabilidades infinitas, enquanto malabariza com bolas de diferentes pesos: aprendizagem dos alunos (a mais pesada, mas curiosamente a que mais facilmente é deixada de lado), gestão administrativa (aquela que ninguém vê, mas todos cobram quando falha) e atendimento aos pais (a arte de sorrir enquanto ouve pela milésima vez que seu filho "em casa é tão diferente"). Esqueça aquela imagem idealizada de alguém em uma sala climatizada, delegando tarefas com café quentinho ao lado. A vida real é outra: é o gestor correndo para resolver um problema na calha, enquanto responde no celular a mais um ofício da Secretaria e pensa mentalmente em como cobrir a aula do professor que ficou doente de última hora.
O gestor é o elo entre a teoria da educação e a prática do “cadê o papel higiênico do banheiro?”. E entre um preenchimento de documentação administrativa e a compra urgente de uma caixinha de giz, precisa sorrir e acenar para os pais na porta da escola como se tudo estivesse sob controle. Spoiler: não está. Mas ele vai fazer parecer que está, porque é gestor, não mágico (embora às vezes confundam os papéis).
Em meio a essa performance digna de circo, nosso personagem é frequentemente convocado a abandonar o picadeiro principal para participar do que podemos carinhosamente chamar de "rituais burocráticos de desperdício coletivo de tempo" - ou simplesmente "reuniões". Essas maravilhosas ocasiões sociais onde trinta pessoas se reúnem para discutir o que poderia ser resolvido por um e-mail de três linhas enviado para algumas pessoas. Mas não, isso seria eficiente demais para o sistema educacional. É quase cômico (se não fosse trágico!) o quanto o gestor escolar é convocado para reuniões, encontros, formações, alinhamentos e outras tantas variações do mesmo evento que, no fundo, servem mais para cumprir protocolo do que para resolver qualquer coisa concreta. A cada semana, surgem novas pautas “urgentes” e “indispensáveis”, como se a escola pudesse funcionar sozinha, no piloto automático, enquanto o responsável pela organização e estar a par do caos real está preso em salas com ar-condicionado, ouvindo discursos padronizados e assistindo a apresentações genéricas. Enquanto isso, o trabalho de verdade, aquele que envolve gente de carne e osso, conflitos reais, decisões imediatas e papelada acumulada, vai se empilhando na mesa do gestor, que torce secretamente para que nenhuma emergência aconteça na escola enquanto ele cumpre seu roteiro de reuniões. Fica a impressão de que, para os tomadores de decisão, o que legitima a atuação do gestor não é sua presença na escola, mas sua pontualidade nos eventos em que tudo se discute, menos a realidade concreta da educação.
E quando não são as reuniões, são os cursos de formação. Ah, os cursos! Aqueles momentos mágicos em que um especialista em generalidades explica o óbvio com palavras complexas. "A gestão democrática participativa envolve a participação democrática dos participantes do processo educativo." Revolucionário! Como ninguém pensou nisso antes? O gestor, que acordou às 5h da manhã para resolver uma infiltração na sala de aula antes do início das aulas, luta heroicamente contra o sono enquanto anota insights tão profundos.
Entre uma reunião inútil e um evento decorativo, nosso herói precisa encontrar tempo para lidar com a espécie mais fascinante do ecossistema escolar: os pais que acreditam que seus filhos vivem em uma redoma de cristal intocável. Esses magníficos espécimes da fauna educacional chegam à escola com a convicção inabalável de que seu rebento é um gênio incompreendido, vítima de um sistema opressor que insiste em exigir coisas absurdas como "respeito aos colegas" e "entrega de tarefas no prazo".
"Meu filho jamais faria isso!" - declara a mãe, enquanto o vídeo da câmera de segurança mostra claramente o pequeno anjo pichando a parede da escola. "Deve haver algum engano, ele é tão calmo em casa!" - insiste o pai, ignorando que o histórico disciplinar do filho tem mais páginas que a Constituição Federal. Qualquer frustração que a criança sofra (desde um bilhete no caderno até um olhar atravessado do colega) é imediatamente interpretada como falha institucional grave. Lá vai o gestor, mais uma vez, com a paciência de um monge tibetano, explicar que convivência escolar envolve conflitos e que, pasmem, seu filho não é intocável. É criança. E criança, veja só, também erra.
Ah, e tem o contracheque! Aquele pedaço de papel que provoca mais risos que um show de comédia. Porque, obviamente, gerenciar uma instituição com centenas de alunos, dezenas de funcionários, um prédio inteiro, e ser responsável legal por tudo o que acontece naquele espaço durante oito horas diárias merece uma remuneração equivalente à de um assistente administrativo júnior em uma empresa privada. Tudo isso, claro, com um sorriso educado no rosto. Porque gestor que se preze precisa ter o equilíbrio de um terapeuta, a firmeza de um juiz e o carisma de um apresentador de auditório, tudo isso ganhando pouco mais do que um salário de sobrevivência. Sim, porque além de tudo, o gestor é mal remunerado. Carrega nas costas o bom funcionamento de toda a escola e, ironicamente, muitas vezes é quem menos ganha proporcionalmente ao tamanho da responsabilidade.
E como se a remuneração insuficiente não fosse um desafio e tanto, nosso protagonista ainda precisa lidar com o orçamento escolar, aquela ficção matemática onde o número de necessidades é inversamente proporcional ao número de recursos disponíveis. "Precisamos de material didático, manutenção do prédio, equipamentos tecnológicos, e ah, o banheiro está entupido." Resposta oficial: "Temos verba para comprar giz. Escolha a cor com sabedoria."
É nesse momento que o gestor escolar descobre que sua formação em pedagogia, especialização em gestão educacional e mestrado em políticas públicas eram apenas o aquecimento para sua verdadeira vocação: tornar-se um empreendedor sem capital, um marqueteiro sem produto, um captador de recursos sem recursos.
Ser gestor escolar nos dias de hoje também é, entre outras coisas, ter um diploma invisível de contador (e dos bons!). Porque, quando o assunto é prestação de contas, não basta ser honesto, comprometido e bem-intencionado: é preciso também dominar planilhas, saber ler portarias, converter centavos em justificativas pedagógicas e ainda prever o imprevisível. E o melhor (ou pior) de tudo: o nome que vai carimbado no fim do processo é o do gestor, claro. Se algo sair do esperado (e sempre sai), é ele quem responderá como se tivesse comprado material escolar com o dinheiro público para decorar a própria sala de estar. Em meio a esse jogo de números, burocracias e necessidades reais da escola (como telhado que pinga, bebedouro que quebra, rede elétrica com problema, espaço físico insuficiente, entre outros), ele precisa se equilibrar entre fazer o dinheiro render e parecer que está tudo sob controle, como se a verba fosse abundante e as demandas, escassas. A prestação de contas, assim, vira um ritual quase sagrado, onde um erro de digitação pode valer mais do que todo o trabalho pedagógico/administrativo realizado. Afinal, na prática, parece que o mais importante é provar, com três vias assinadas, declarações infindas, que não desviou um clips sequer.
O mais fascinante é que, apesar de tudo isso, espera-se que o gestor escolar mantenha os índices educacionais em ascensão, a evasão em queda, a satisfação da comunidade em alta, o prédio em perfeitas condições, e ainda tenha tempo para implementar projetos inovadores que serão apresentados como casos de sucesso no próximo evento inútil. Tudo isso com um orçamento que faria um monge franciscano questionar se não é excessivo.
Em um sistema verdadeiramente eficiente, o gestor escolar estaria onde realmente importa: na escola, trabalhando diretamente com sua equipe, alunos e comunidade. Seria remunerado de acordo com a importância e complexidade de sua função. Teria recursos adequados para gerir a instituição sem precisar se transformar em um vendedor de rifas. As reuniões seriam objetivas e apenas quando necessárias, os cursos seriam relevantes e aplicáveis, e os eventos públicos celebrariam conquistas reais ao invés de servirem como palanques políticos. E, talvez o mais utópico de tudo, os pais entenderiam que seus filhos são seres humanos em formação, não divindades infalíveis.
Mas isso, obviamente, seria racional demais para o nosso sistema educacional. Então, enquanto aguardamos essa utopia administrativa, nossos gestores continuarão sua dança frenética entre o essencial e o supérfluo, tentando não perder o equilíbrio nessa corda bamba institucional, sob aplausos de quem nunca precisou atravessá-la, com um salário que não compensa o desgaste e uma criatividade financeira que faria inveja a qualquer contador de uma empresa em crise.
Mas tudo bem. No fim do dia, quando consegue, por milagre, cinco minutos para tomar um café frio e responder uma mensagem no grupo da equipe, ele respira fundo e pensa: “Amanhã tem mais”. E tem mesmo. Porque, apesar de tudo, ainda acredita na escola. Acredita na transformação pela educação. E vai continuar, mesmo exausto, mesmo sem o reconhecimento que merece, mesmo com pouco recurso e muita cobrança. Ele segue. Um pouco cínico, mais experiente, e sempre pronto para apagar mais um incêndio, literal ou metafórico.
Afinal, ser gestor escolar não é profissão. É resistência, é missão. E, às vezes, é até milagre.
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