A (de)FORMAÇÃO DOCENTE
- Paulo Garcia

- 27 de mai. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 21 de jul. de 2025

Há um fenômeno silencioso — mas devastador — se espalhando pelas escolas: a crise de bons professores. O que vou dizer, não é saudosismo barato, é constatação mesmo. Até um tempo atrás, formar-se professor era um projeto de vida. O curso era denso, exigente, com estágios supervisionados que colocavam o futuro docente cara a cara com a sala de aula real. Uma formação que levava em conta a complexidade de lidar com gente, com conhecimento e com realidade.
Claro que não era tudo perfeito, mas havia uma intenção formativa genuína. E os que seguiram na profissão e souberam se adaptar às transformações tecnológicas, sociais e pedagógicas, hoje são os que, em muitos casos, seguram as pontas da educação pública.
Hoje, temos o novo “boom” da formação docente: os cursos de licenciatura a distância. Aqueles que você conclui praticamente sem sair de casa (ou da cama). Marketing agressivo: “Seu diploma em menos tempo, com mais flexibilidade!”, e uma estrutura que mais parece linha de montagem: entra aluno, sai licenciado. Só esqueceram de avisar que junto com o diploma não vem preparo, nem profundidade, nem vivência real de sala de aula. Tem gente se formando sem nunca ter pisado numa escola como educador. Mas está habilitado, veja só!
Estamos formando professores no atacado, com uma ilusão de qualidade embalada em certificados e tutoriais gravados. Mas o conteúdo profundo, o debate pedagógico sério, a prática real, ficaram pelo caminho. E o bom professor — aquele que inspira, transforma e sustenta a escola — virou quase uma lenda urbana.
Agora imagine essa formação frágil sendo jogada no olho do furacão: uma sala de aula cheia, alunos com necessidades diversas, contextos familiares complexos, demandas emocionais, inclusão, tecnologia, violência, currículos engessados e metas inalcançáveis. O professor, mal preparado, mal remunerado e mal orientado, se vê diante de um desafio para o qual não foi treinado — e ainda culpado por não dar conta.
E o modelo de professor que essa nova geração conhece? É o da época em que eram alunos. Tentam reproduzir em sala de aula um ensino baseado na lousa e no “ensino” coletivo, ignorando completamente que os alunos de hoje são hiperconectados, críticos, cheios de voz — e sem paciência pra aulas no estilo "decore e repita". Resultado: frustração de ambos os lados. O professor se sente desrespeitado, os alunos se sentem entediados, e a aprendizagem fica ali, no canto da sala, chorando em posição fetal.
E tem mais. Como se não bastasse a formação rasa, há ainda uma leva de futuros professores que, sejamos honestos, não estão na licenciatura por vocação, mas por conveniência. O curso de pedagogia virou o destino certo de quem quer bolsa fácil, baixa concorrência e um diploma com cara de “alavanca social”. Como em um passe de mágica, transformamos pessoas que mal conseguem interpretar um texto em responsáveis por alfabetizar a próxima geração. Genial! E ninguém diz isso em voz alta porque é politicamente incorreto. Mas é real. A pedagogia virou refúgio, não escolha.
É triste, é alarmante, e é urgente. Porque sem bons professores, não há inclusão, inovação, nem esperança de mudança. E se continuar assim, o futuro da educação vai estar nas mãos de profissionais que sabem tudo de plataformas EAD, mas nada de criança. Gente que domina a arte de responder fórum online, mas entra em pânico ao ouvir um “professoraaaa!” vindo do fundo da sala.
É óbvio que não podemos generalizar. Temos bons professores vindos sistema EAD (geralmente aqueles que realmente buscaram sua formação, que estão empenhados na atualização constante e que se empenham em fazer seu melhor), como também temos péssimos profissionais formados no Ensino Presencial, que pouco evoluíram, muitas vezes se segurando na estabilidade de um concurso público durante todos esses anos de carreira.
Ensinar nunca foi fácil, mas agora virou um jogo de sobrevivência. E o problema não está apenas na sala de aula, mas no que (não) acontece antes dela. A crise de bons professores não é uma coincidência. É uma consequência. E o mais trágico é que vamos pagar essa conta não só nas salas de aula de hoje, mas nas gerações inteiras que serão formadas por quem não foi bem formado.
Os gestores educacionais da prateleira de cima, verdadeiros magos da ilusão administrativa, propõem "soluções inovadoras" que geralmente se resumem a mais trabalho para os já sobrecarregados gestores escolares. "Vamos criar mais um programa de formação continuada!", “Vamos fazer reuniões periódicas pra formar os gestores escolares para que sejam multiplicadores na escola!”, anunciam com entusiasmo, como se adicionar mais uma camada de tinta sobre uma parede com rachaduras estruturais fosse resolver o problema. E, claro, esses programas/cursos/reuniões virão acompanhados de mais relatórios, mais planilhas e mais reuniões – porque, aparentemente, a burocracia é o verdadeiro objetivo da educação brasileira.
Não dá pra se colocar toda essa formação continuada nas costas já arqueadas do coordenador pedagógico que se veem incumbidos da missão impossível: transformar água em vinho, ou melhor, transformar professores com formação deficiente em educadores competentes. O coordenador tenta, em reuniões pedagógicas de duas horas semanais (quando não são canceladas por alguma “emergência”), preencher abismos de conhecimento que deveriam ter sido trabalhados durante quatro anos de graduação. É como tentar esvaziar o oceano com uma colher de chá, mas ninguém parece notar o absurdo da situação.
É urgente repensar as licenciaturas. Cursos presenciais robustos, com vínculo efetivo entre universidade e escola básica, supervisão de estágio comprometida, e currículo conectado à realidade das redes públicas. Além disso, a formação continuada precisa sair do modelo improvisado e entrar num planejamento de longo prazo, articulado com as necessidades reais da equipe, conduzido por profissionais qualificados — e, principalmente, com tempo e investimento adequados.
Muitos dizem que ser professor é dom, é vocação. Pode até ser, mas sem formação decente, só essas duas características não se sustentam!
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