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O EMBURRECIMENTO COLETIVO

  • Foto do escritor: Paulo Garcia
    Paulo Garcia
  • 22 de jun. de 2025
  • 6 min de leitura

Nesses tempos modernos, onde a informação flui facilmente e o conhecimento se democratiza (pelo menos em tese), assistimos a um espetáculo peculiar, e por vezes hilário em sua tragédia: o emburrecimento coletivo. Não se trata de uma involução biológica, fiquem tranquilos, nossos cérebros ainda são capazes de grandes feitos, como memorizar senhas complexas, a letra daquela música chiclete que insiste em tocar no repeat e, em casos mais avançados, até mesmo a sequência de episódios de uma série de streaming (contém ironia!). O problema é mais sutil, mais traiçoeiro, e, para o desespero dos pensadores, totalmente fabricado por nós mesmos, com a colaboração de processos sociais, políticos e midiáticos que, com uma maestria digna de um maestro desafinado, orquestram a sinfonia da superficialidade e da desinformação. É um empobrecimento cultural, cognitivo e crítico que se manifesta em diversas frentes, corroendo as bases do discernimento e da racionalidade.

 

Vivemos a era de ouro do conteúdo raso, um verdadeiro banquete de informações pré-digeridas e mastigadas, servidas em porções minúsculas para não sobrecarregar o intelecto. Aquela máxima de que "menos é mais" foi levada a um patamar tão extremo que, em breve, estaremos nos comunicando apenas por emojis, memes e grunhidos monosilábicos. A valorização de informações simplistas e descartáveis é a nova moeda de troca no mercado da atenção, onde a profundidade é vista como um estorvo e a complexidade, um inimigo a ser evitado a todo custo. Por que se aprofundar em um tema complexo, que exige pesquisa, reflexão e, pasmem, leitura, quando se pode ter a ilusão de conhecimento com um tweet de 280 caracteres, um vídeo de 15 segundos no TikTok ou um infográfico colorido que resume séculos de história em poucas linhas? O pensamento crítico, antes uma ferramenta essencial para navegar na complexidade do mundo e para formar opiniões embasadas, tornou-se um artigo de luxo, reservado a poucos excêntricos que ainda insistem em questionar o óbvio, em buscar a verdade por trás das manchetes e em discernir entre fato e ficção. Afinal, quem precisa de debates, de contradições, quando a vida pode ser convenientemente dividida em "bom" e "ruim", "certo" e "errado", "eu" e "o outro", em uma polarização que simplifica o mundo a um ponto de absurdo?

 

E nesse cenário de simplificação e preguiça intelectual, as "fake news" florescem como ervas daninhas em um jardim mal cuidado, ou melhor, como pragas em um campo fértil para a desinformação. A propagação massiva de informações falsas ou distorcidas atinge níveis tão absurdos que, por vezes, é difícil acreditar que seres humanos com um mínimo de capacidade cognitiva, com acesso a bibliotecas digitais e a mecanismos de busca, possam acreditar (ou, na pior das hipóteses, compartilhar por pura maldade, por conveniência política ou por um desejo insaciável de causar discórdia) em tais aberrações. Mas a verdade é que, na ausência de um filtro crítico, de uma educação que ensine a duvidar, a verificar, a confrontar fontes, qualquer narrativa, por mais esdrúxula, conspiratória ou desprovida de lógica que seja, encontra terreno fértil para se enraizar e se espalhar como um vírus. A desinformação não é apenas um erro; é uma estratégia, um instrumento de manipulação que, de tão óbvio em sua falsidade, chega a ser genial em sua simplicidade e eficácia. É como se a realidade tivesse sido substituída por um show de horrores onde o público, hipnotizado pela tela, aplaude a cada nova aberração, a cada nova mentira deslavada, sem questionar a veracidade ou as intenções por trás da cortina.

 

Paralelamente à ascensão do raso e à proliferação da desinformação, temos a cultura do entretenimento vazio, uma verdadeira epidemia de distração que nos impede de olhar para o espelho da realidade. Horas a fio dedicadas a consumir conteúdos que não estimulam o raciocínio, não provocam reflexão, não desafiam o intelecto, não expandem horizontes. Apenas distraem, preenchem o vazio, anestesiam a mente. É a anestesia perfeita para mentes que se recusam a pensar, a sentir, a se conectar com o mundo real. Séries infinitas com roteiros previsíveis, vídeos curtos e virais, jogos que exigem mais reflexos do que neurônios, ... Tudo contribui para a criação de uma bolha de conforto onde a complexidade é banida, a profundidade é evitada e a ignorância é uma bênção. E, como cereja do bolo, a educação, antes vista como o pilar da sociedade, como a ferramenta de ascensão social e intelectual, é desvalorizada, relegada a um segundo plano, vista como um fardo, um obstáculo a ser superado, uma mera formalidade para a obtenção de um diploma, e não como a chave para a liberdade intelectual, para o desenvolvimento pessoal e para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa. O conhecimento, que deveria ser um fim em si mesmo, torna-se um meio para outros fins, muitas vezes superficiais e imediatistas.

 

As consequências desse cenário são tão previsíveis quanto o final de um filme de comédia romântica, mas com um toque de tragédia grega. A manipulação das massas torna-se uma tarefa trivial para qualquer um com um mínimo de carisma, uma boa equipe de marketing e acesso a uma plataforma digital com algoritmos que amplificam a polarização e o sensacionalismo. O crescimento de discursos anticientíficos, negacionistas e intolerantes ganha força, pois a verdade, antes um valor inegociável, um ideal a ser buscado, é agora uma questão de opinião, de crença pessoal, de conveniência política. A dificuldade em lidar com problemas complexos, que exigem análise, síntese, colaboração e pensamento sistêmico, se acentua, pois, a capacidade de análise e síntese é atrofiada pelas informações rasas e pela aversão ao esforço intelectual. E, para coroar essa tragédia em atos, a fragilização da democracia e do debate público se torna uma realidade palpável, onde o diálogo é substituído por gritos, a razão por paixões cegas, o argumento por ataques pessoais, e a busca por soluções por uma guerra de narrativas, onde o objetivo não é convencer, mas destruir o oponente.

 

Diante desse quadro apocalíptico, que mais parece um roteiro de filme de terror do que a realidade, a educação surge como o último bastião da sanidade, o farol em meio à tempestade da ignorância. É ela, em sua essência mais pura e libertadora, a ferramenta capaz de reverter esse cenário, de resgatar a capacidade de pensar, de questionar, de discernir. Mas, e aqui reside o sarcasmo mais amargo e a crítica mais dolorosa, alguns "educadores" também parecem ter sido infectados pelo vírus do emburrecimento coletivo. Professores que reproduzem discursos prontos, que evitam o debate, que se recusam a questionar, que priorizam a forma em detrimento do conteúdo, que se curvam às pressões ideológicas ou mercadológicas, que transformam a sala de aula em um palco para a doutrinação ou em um mero centro de treinamento para o mercado de trabalho, são, ironicamente, parte do problema que deveriam combater. É como um médico que, ao invés de curar a doença, a propaga, ou um bombeiro que, ao invés de apagar o incêndio, joga gasolina. A educação, para ser um antídoto eficaz, precisa ser libertadora, crítica, questionadora, transformadora, e não um mero repositório de informações prontas para consumo rápido, ou um instrumento de conformidade social.

 

É preciso resgatar o valor do conhecimento, da leitura aprofundada, da pesquisa rigorosa, do debate construtivo, da troca de ideias. É preciso ensinar a pensar por si mesmo, a duvidar das certezas absolutas, a questionar as narrativas dominantes, a discernir entre o que é relevante e o que é ruído, entre o que é verdadeiro e o que é falso. É preciso valorizar a complexidade, o debate, a profundidade, a capacidade de lidar com o contraditório. É preciso, acima de tudo, reacender a chama da curiosidade e do desejo de aprender, de explorar o desconhecido, de expandir os próprios limites.

 

Porque, no fim das contas, o emburrecimento coletivo não é uma fatalidade imposta por forças externas, mas uma escolha, uma renúncia à responsabilidade de pensar. E a escolha de ser inteligente, de ser crítico, de ser livre, de ser um cidadão consciente e atuante, ainda está em nossas mãos. Ou, pelo menos, nas mãos daqueles que ainda se importam em usá-las para algo além de rolar o feed de notícias, curtir fotos de gatos, disseminar notícias falsas e compartilhar correntes de WhatsApp.

 

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