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QUANDO A LUTA CALA O DIÁLOGO

  • Foto do escritor: Paulo Garcia
    Paulo Garcia
  • 19 de jan.
  • 5 min de leitura

Vivemos um tempo estranho. Nunca se falou tanto sobre justiça, respeito e igualdade, mas nunca foi tão difícil conversar. As pessoas estão sempre prontas para reagir, quase nunca dispostas a escutar. Qualquer fala vira ataque, qualquer opinião vira ameaça, qualquer erro vira prova de caráter. Parece que entramos na era da indignação permanente, onde todos estão armados com certezas e ninguém carrega dúvidas. O que deveria ser debate virou disputa moral. O que deveria aproximar acabou afastando.


É inegável que temas como luta de classes, racismo, homofobia, machismo e valorização da mulher são importantes. Eles surgem de dores reais, de injustiças históricas e de desigualdades que ainda existem. Questionar isso seria desonesto. O problema não está nas causas, mas na forma como elas passaram a ser defendidas. Em vez de criar consciência, muitas vezes criam medo. Em vez de gerar apoio, geram afastamento. Em vez de convidar ao diálogo, impõem silêncio.


Hoje, falar virou um risco. Não porque não existam coisas importantes a dizer, mas porque qualquer palavra pode ser interpretada da pior forma possível. Não importa tanto a intenção, o contexto ou a história de quem fala. O que vale é o recorte, a frase isolada, o print. O erro não é mais parte do aprendizado, mas uma falha moral imperdoável. Isso cria uma sociedade tensa, desconfiada, sempre esperando o próximo escândalo.


Michel Foucault dizia que o poder não está apenas nas grandes instituições, mas nas pequenas relações do dia a dia. Ele está nos discursos, nos olhares, nas normas invisíveis. Hoje isso fica muito claro. As pessoas se vigiam o tempo todo, especialmente nas redes sociais. Todos observam todos. Todos julgam todos. Não é mais o Estado que controla diretamente o discurso, mas a própria sociedade. Um grande tribunal informal, onde a sentença vem rápida e sem direito à defesa.

As causas sociais, que deveriam libertar, começam a funcionar como regras rígidas. Surgem palavras proibidas, opiniões aceitáveis e pensamentos perigosos. Questionar vira sinônimo de atacar. Discordar vira sinônimo de ser inimigo. Não se discute mais ideias, discute-se caráter. Quem pensa diferente não está apenas errado, está “do lado errado da história”. Isso transforma a luta em dogma, e todo dogma dispensa reflexão.


Hannah Arendt alertava para o perigo de agir sem pensar. Para ela, o mal não nasce apenas da crueldade, mas da falta de reflexão. Quando as pessoas seguem regras morais sem questionar, podem cometer grandes injustiças acreditando estar fazendo o bem. Algo parecido acontece hoje. Muitas pessoas se sentem autorizadas a humilhar, expor e atacar outras em nome de uma causa justa. O problema é que a violência não deixa de ser violência só porque vem acompanhada de boas intenções.


Existe também uma contradição curiosa: quanto mais se fala em tolerância, menos tolerância se pratica. A diferença só é aceita quando confirma aquilo que já se acredita. O outro só é respeitado se concordar. Basta discordar para virar alvo. A sociedade que diz defender a diversidade parece aceitar apenas uma diversidade muito específica: a que pensa igual.


Outro ponto importante é a transformação da dor em moeda social. Sofrer passou a dar autoridade automática. Quem sofre mais, fala mais. Quem questiona, “invalida vivências”. Isso cria um problema sério, porque impede qualquer debate racional. Não se pode discutir ideias se toda crítica é interpretada como ataque pessoal. O diálogo morre, e no lugar surge uma disputa de quem é mais vítima.


Nietzsche falava do ressentimento como uma força poderosa. Para ele, o ressentido não cria, apenas reage. Ele não constrói valores, apenas acusa. Em muitos casos, o discurso moral atual parece movido por esse ressentimento. Há mais prazer em apontar erros do que em buscar soluções. Mais satisfação em destruir reputações do que em transformar realidades. A indignação virou um fim em si mesma.


Tudo também virou político. Absolutamente tudo. Uma piada, um filme, uma música, uma escolha de palavras, uma opinião sobre qualquer assunto. Não existe mais espaço neutro. Se você fala, é porque apoia um lado. Se fica em silêncio, é porque compactua com outro. Essa lógica sufoca a convivência. As pessoas deixam de ser pessoas e passam a ser rótulos ambulantes.


Nesse ambiente, errar se torna um crime grave. Não há espaço para aprendizado. Não existe a ideia de que alguém pode mudar, crescer ou repensar posições. Um erro define toda a identidade da pessoa. O passado é usado como sentença eterna. Isso não educa, não conscientiza, não transforma. Apenas afasta.


As redes sociais pioram tudo isso. Elas transformaram a indignação em espetáculo. Não se reage para resolver algo, mas para ser visto reagindo. A virtude precisa de plateia. A empatia precisa de curtidas. O engajamento virou performance. Cancelar alguém dá sensação de poder, de pertencimento, de estar do lado certo. É rápido, fácil e não exige responsabilidade.


Enquanto isso, problemas reais continuam existindo. A desigualdade continua. A fome continua. A violência continua. Mas essas lutas são mais complexas, exigem esforço contínuo e não rendem tanta visibilidade. É mais fácil discutir palavras do que estruturas. É mais confortável brigar entre si do que enfrentar sistemas maiores.


O mercado percebeu isso rapidamente. Causas sociais viraram produtos. Empresas exploram discursos de diversidade enquanto mantêm práticas injustas. Vendem camisetas com slogans enquanto exploram trabalhadores. A revolução vira marketing. A crítica vira campanha publicitária. E assim, aquilo que nasceu para questionar o sistema acaba sendo absorvido por ele.


O medo de errar cria silêncio. As pessoas evitam falar, evitam perguntar, evitam aprender. Preferem repetir frases prontas do que arriscar um pensamento próprio. Isso empobrece o debate e enfraquece as próprias causas. Uma luta que não aceita perguntas se transforma em seita. E toda seita, mais cedo ou mais tarde, se fecha em si mesma.


A democracia depende do conflito, mas de um conflito saudável. Depende do direito de discordar sem ser destruído. Depende da possibilidade de errar sem ser excluído. Hannah Arendt dizia que a política nasce quando pessoas diferentes aparecem umas diante das outras para conversar. Mas isso exige coragem, maturidade e disposição para ouvir. Coisas raras num ambiente dominado pela pressa e pela indignação automática.


Talvez o maior problema do nosso tempo seja a falta de pensamento. Reagimos antes de entender. Julgamos antes de escutar. Condenamos antes de refletir. Pensar dá trabalho, exige pausa, exige dúvida. Mas é justamente isso que impede que causas justas se transformem em instrumentos de intolerância.


No fim, a questão não é ser contra ou a favor das lutas sociais. A questão é como lutamos. Se a luta afasta mais do que aproxima, algo está errado. Se o discurso gera medo em vez de consciência, algo se perdeu no caminho. Defender justiça não pode significar eliminar o diálogo. Combater opressão não pode significar criar novas formas de silenciamento.


Talvez o gesto mais radical hoje seja simples: escutar. Admitir que não sabemos tudo. Aceitar que o outro pode errar sem ser inimigo. Entender que pensar diferente não é crime. A liberdade não nasce da unanimidade, mas da convivência entre diferenças.


No meio de tanto barulho, talvez o verdadeiro avanço esteja em diminuir o tom, não em aumentar a gritaria. Em trocar o ataque pela conversa. Em lembrar que causas sociais existem para melhorar a vida das pessoas, não para transformar a sociedade num campo permanente de julgamento moral. Pensar, dialogar e reconhecer limites talvez seja menos chamativo do que cancelar, mas certamente é mais transformador.

 
 
 

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