top of page
Buscar

QUANDO A META MATA

  • Foto do escritor: Paulo Garcia
    Paulo Garcia
  • 2 de jun. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 12 de jun. de 2025


Soubemos nesse final de semana (30/06/2025), com um nó na garganta que já se tornou crônico para quem acompanha a educação brasileira, do falecimento de uma professora, a professora Silvaneide, da Rede Estadual de Educação do Paraná. Não foi uma doença longa, nem um acidente imprevisível. Foi um infarto. Fulminante. O gatilho? Uma singela, cordial e motivadora conversa sobre… metas. Sim, as onipresentes, oniscientes e onipotentes metas, ditadas por plataformas digitais que prometem a redenção educacional em troca de gráficos ascendentes e números que afagam o ego de gestores distantes da poeira de giz.

Morreu-se em serviço. Não em um campo de batalha tradicional, mas em um front muito mais insidioso: a sala de reuniões pedagógicas, transformadas em tribunal sumário onde a performance numérica vale mais que a vida, a dedicação e a sanidade de quem está na linha de frente. Que belo espetáculo de gestão moderna! Eficiência acima de tudo, até mesmo da pulsação cardíaca. Celebremos, pois, a nova era da educação, onde o sucesso se mede em dashboards e o fracasso, aparentemente, em eletrocardiogramas zerados.


AS METAS! Sim, essas cifras mágicas que, supostamente, traduzem a complexidade do processo ensino-aprendizagem em gráficos coloridos e percentuais frios. Metas que, não raro, são paridas em gabinetes refrigerados por técnicos que jamais sentiram o cheiro de uma sala de aula superlotada ou tentaram explicar frações para adolescentes mais interessados no último viral do TikTok. Metas "desafiadoras", eufemismo para "inatingíveis", que ignoram solenemente a realidade socioeconômica dos alunos, a falta de material básico, a ausência de apoio familiar, a carência da estrutura física das escolas, e por aí vai.

E para garantir que ninguém escape dessa gincana insana, temos as plataformas! Softwares que prometem monitorar cada passo, cada clique, cada respiração do professor e do aluno. Plataformas que, em sua infinita sabedoria algorítmica, decidem quem é bom e quem é... dispensável. O professor vira um mero alimentador de dados, um operador de sistema.

A pressão, claro, é a cereja nesse bolo indigesto. Uma pressão que escorre de cima para baixo, numa cascata de cobranças que passa pelas Secretarias, esmaga os gestores escolares (eles mesmos, coitados, reféns do sistema) e explode, como uma bomba-relógio, no colo do professor. "Cumpra a meta ou..." O quê? Ninguém diz abertamente, mas o olhar inquisidor, a comparação humilhante com o colega "bem-sucedido" (leia-se: sortudo ou mestre em maquiar números) e a ameaça velada de instabilidade pairam no ar como uma nuvem tóxica. A professora que infartou não foi vítima de uma fatalidade isolada; foi a vítima do sacrifício de um sistema que adoece e mata em nome de uma eficiência que só existe nas planilhas.


Não sejamos ingênuos a ponto de demonizar apenas os gestores escolares. Muitos deles são ex-professores, almas que um dia também sonharam com a transformação pela educação, mas que foram tragados pela máquina burocrática. São cobrados por resultados que não dependem apenas de sua vontade ou competência, pressionados por instâncias superiores que exigem milagres sem fornecer as ferramentas – ou sequer a dignidade – necessárias. Tornam-se, assim, meros capatazes da mediocridade, obrigados a repassar a pressão adiante, a exigir o impossível de seus comandados, sob pena de terem suas próprias cabeças na bandeja.

É uma dança macabra de empurra-empurra de responsabilidades, onde a culpa é diluída até se tornar quase leve, mas cujas consequências são dolorosamente concretas. O sistema educacional, com sua estrutura hierárquica e sua obsessão por rankings e comparações internacionais (muitas vezes descontextualizadas), cria o ambiente perfeito para essa cultura tóxica florescer. A lógica importada acriticamente do mundo corporativo, invade a escola, tratando alunos como produtos, professores como operários de linha de montagem e o conhecimento como mercadoria. O foco sai do aprendizado significativo, da formação cidadã, do desenvolvimento humano, e se volta para o cumprimento de índices, para a performance mensurável, para o fetiche do número.


Nesse cenário desolador, o professor é o elo mais fraco, o para-choque que absorve o impacto final. É ele quem lida diretamente com a diversidade de desafios em sala de aula, quem tenta (muitas vezes em vão) compensar as lacunas deixadas pela família, pela sociedade e pelo próprio Estado. E é ele quem, no fim do dia, é cobrado como se tivesse superpoderes, como se pudesse, sozinho, reverter décadas de descaso e desigualdade com uma caneta vermelha e boa vontade. A morte da professora não é um ponto fora da curva; é a consequência lógica de um sistema que exige o sobre-humano e oferece, em troca, o sub-humano.


Ah, e a remuneração! O reconhecimento financeiro por essa missão hercúlea é, para ser gentil, uma piada de mau gosto. Salários que mal pagam as contas, que obrigam a jornadas duplas ou triplas, que empurram o profissional para a exaustão física e mental. Exige-se dedicação exclusiva, atualização constante, paixão pelo ensino, mas oferece-se em troca um valor que mal cobre o transporte e o lanche. É a valorização pelo avesso, um convite sarcástico à filantropia forçada.


E coroando essa arquitetura do absurdo, temos as avaliações externas e as plataformas que se tornaram o Santo Graal da educação moderna. Provas padronizadas, aplicadas de forma massiva, que ignoram as especificidades locais, as diferenças culturais, os ritmos individuais de aprendizagem. O foco deixa de ser o processo, a construção do saber, e passa a ser o treino para o teste, a memorização de conteúdos que serão rapidamente esquecidos após a prova. E ai daqueles que não se encaixam no padrão! Alunos com dificuldades de aprendizagem, com deficiências, alvos da educação especial? São convenientemente tratados como estatísticas a serem contornadas, números que atrapalham a beleza dos gráficos ascendentes. A plataforma não tem coração, não tem empatia, não vê o aluno por trás do número. Ela apenas mede, compara e sentencia, transformando a escola num grande vestibular permanente, onde a inclusão é só uma palavra bonita no projeto pedagógico que ninguém lê.


Depois de pintar esse quadro apocalíptico (e, infelizmente, realista), seria leviano não fazer algumas reflexões de como revertê-lo. Mas não espere soluções mágicas. O buraco é mais embaixo, e a reconstrução exige mais do que boas intenções e powerpoints motivacionais.

Primeiro, precisamos de uma desintoxicação urgente da ditadura das métricas e plataformas. Que tal começar a tratar avaliações como ferramentas de diagnóstico e apoio, e não como instrumentos de tortura e ranqueamento? Que tal construir metas realistas, contextualizadas, negociadas com quem está no chão da escola, e que valorizem o processo, a colaboração, a criatividade, e não apenas o resultado final numérico? E as plataformas? Que sirvam de apoio, de recurso, e não de capataz digital.

Segundo, é preciso investir de verdade, em estrutura e gente. Isso significa escolas seguras, bem equipadas, com bibliotecas, laboratórios, quadras esportivas, acesso à tecnologia que funcione. Significa material pedagógico de qualidade e em quantidade suficiente. E, crucialmente, significa salários dignos para os professores, que reconheçam sua importância estratégica e lhes permitam viver com um mínimo de conforto e segurança, sem a necessidade de se desdobrar em jornadas desumanas. Valorizar o professor não é discurso, é orçamento.

Terceiro, urge repensar a gestão e a própria lógica do sistema. Menos hierarquia opressora, mais gestão democrática e participativa. Menos cobrança cega por resultados, mais apoio pedagógico e formação continuada relevante. Menos foco em competir e comparar, mais em colaborar e incluir. Precisamos resgatar a autonomia do professor, sua capacidade de criar, de adaptar, de inovar, sufocada hoje pela burocracia e pelo controle excessivo. E, talvez o mais difícil, precisamos de uma mudança cultural que veja a educação não como uma despesa a ser cortada ou um negócio a ser otimizado, mas como um direito fundamental e um investimento no futuro. Um futuro onde professores não infartem por causa de metas, mas se realizem ao ver seus alunos florescerem.


É pedir muito? Talvez. Mas continuar nesse caminho atual não é apenas insustentável; é criminoso. A morte da professora Silvaneide não pode ser apenas mais uma estatística triste. Tem que ser um basta. Um grito engasgado que finalmente faça barulho nas salas onde as decisões são tomadas. Antes que a próxima vítima seja a própria educação.



Gostou? Clique abaixo e Compartilhe!!!

Não concorda? Comente... Vamos discutir ideias!

 
 
 

Comentários


© 2025 by PAULO GARCIA. Powered and secured by Wix

bottom of page