Saúde Mental na Adolescência – Parte 1/3: UMA DOR ANTIGA, UMA DISCUSSÃO RECENTE
- Paulo Garcia

- 21 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 30 de jul. de 2025

A adolescência, período de transição entre a infância e a vida adulta, é intrinsecamente marcada por intensas transformações físicas, emocionais e sociais. Contudo, a forma como a sociedade e as instituições abordam a saúde mental nessa fase tem evoluído significativamente ao longo do tempo. Se antes a questão era frequentemente negligenciada, vista como uma "fase" turbulenta e passageira, hoje, a crescente visibilidade dos desafios enfrentados pelos jovens impõe uma reflexão profunda sobre a urgência de um olhar mais atento e proativo.
Historicamente, a saúde mental infanto-juvenil foi relegada a um segundo plano, muitas vezes associada a estigmas e tratamentos inadequados, pautados pela omissão e, em casos extremos, pela institucionalização. Um período de rebeldia, de conflitos passageiros, de hormônios desajustados, de exageros emocionais que, com o tempo, “simplesmente passariam”. A crença de que as oscilações de humor e as dificuldades emocionais eram inerentes à adolescência contribuía para a invisibilidade do sofrimento. A falta de reconhecimento da vulnerabilidade psíquica dos adolescentes resultava em uma lacuna no suporte e na intervenção precoce.
Se um adolescente estava triste, diziam que era drama. Se se mostrava ansioso, rotulavam como frescura. Se demonstrava cansaço, apatia ou isolamento, rapidamente era chamado de preguiçoso, antissocial ou problemático. As dores emocionais eram vistas como falhas de caráter, falta de disciplina ou ausência de limites. Por muitos anos, se esperou que os adolescentes se ajustassem a um mundo que pouco estava disposto a acolher suas angústias. A escuta sensível não era uma prática comum. A saúde emocional era invisível. O sofrimento mental, quando aparecia, era silenciado ou, muitas vezes, tratado com punição, desprezo ou indiferença.
Isso não significa que os adolescentes do passado não sofriam. Eles sofriam, sim. Mas sem nome, sem diagnóstico, sem apoio e, muitas vezes, sem esperança. Suas dores emocionais eram normalizadas, ignoradas ou romantizadas como algo próprio da juventude. Ao longo dos últimos anos, com os avanços da psicologia, da neurociência e das discussões sobre saúde mental, começamos a entender que as emoções, os transtornos e os sofrimentos psíquicos não escolhem idade. Adolescente não sofre menos por ser jovem. Ao contrário: a adolescência é, por si só, uma fase profundamente desafiadora, marcada por transformações intensas no corpo, na mente, nas relações e na construção da própria identidade. Mesmo assim, até pouco tempo atrás, falar abertamente sobre ansiedade, depressão, automutilação ou sobre pressão social era visto como exagero. A saúde mental era quase um luxo de quem tinha tempo para pensar sobre si, nunca uma pauta urgente.
E então veio a pandemia...
De repente, o mundo parou. As rotinas foram quebradas, as escolas fecharam, os encontros desapareceram, os abraços sumiram. Aquilo que é essencial na adolescência, como a convivência, os vínculos, a construção de identidade no olhar do outro, se desfez da noite para o dia. O isolamento social impôs aos adolescentes um desafio gigantesco: enfrentar, muitas vezes sozinhos, seus próprios medos, inseguranças e ansiedades, sem as redes de apoio que antes, de forma natural, ajudavam a amortecer as dores do crescimento.
Foi nesse cenário que a saúde mental, que já dava sinais de colapso, simplesmente transbordou. O que antes era ignorado, virou urgência. A ansiedade ganhou rosto. A depressão deixou de ser invisível. O aumento dos casos de automutilação, ideação suicida e transtornos emocionais se tornou alarmante. E, finalmente, a sociedade precisou olhar.
Mas é importante compreender que a pandemia não criou esses problemas. Ela apenas tirou o véu que encobria uma realidade que, há muito, estava sendo negligenciada. A diferença é que agora o sofrimento ficou escancarado, visível, inquestionável. As famílias passaram a presenciar dentro de casa aquilo que muitas vezes era mascarado pela correria da rotina, pela escola, pelos encontros, pelo esporte ou pelo convívio social.
A geração atual não é mais frágil do que as anteriores. Ela é apenas mais exposta, mais pressionada, mais cobrada e, ao mesmo tempo, mais consciente de que saúde mental importa e precisa ser discutida. A diferença está na visibilidade, na coragem de falar, na recusa em aceitar que sofrimento psíquico seja visto como fraqueza. Falar de saúde mental na adolescência hoje não é mais uma escolha. É uma necessidade urgente. Porque é nessa fase que se constroem os alicerces emocionais, afetivos e psicológicos que sustentarão a vida adulta. Ignorar isso é permitir que uma geração inteira cresça carregando feridas emocionais que poderiam ser acolhidas, tratadas e, muitas vezes, curadas.
O que estamos vivendo é, na verdade, um convite. Um chamado coletivo para repensar nossas práticas, nossas relações, nossas escutas e nossos olhares. A saúde mental dos adolescentes não pode ser tratada como algo secundário. Ela precisa ser prioridade nas escolas, nas famílias, nas políticas públicas e em todos os espaços de convivência. Cuidar da saúde mental dos adolescentes não é apenas oferecer suporte quando eles adoecem. É, acima de tudo, construir ambientes mais saudáveis, relações mais acolhedoras e uma sociedade menos adoecedora. É entender que o problema não está nos jovens que não aguentam a pressão, mas sim num mundo que coloca sobre eles uma carga muitas vezes insustentável.
Talvez, o maior aprendizado que tudo isso nos trouxe é que saúde mental não é sobre ensinar adolescentes a suportar o insuportável. É sobre transformar o mundo para que ele não adoeça quem está começando a viver.
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